quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Desencanto

Desgostei. Desencantei.
Passei um café, pensei. Tomei duas xícaras e pensei.
Na verdade já não havia mais nada a pensar. Já tinha decidido tudo só ainda não tinha a coragem .
Coragem pra acabar e pôr pontos finais. Coragem faltou até pra pôr ponto final no que era pouco, pouco-quase-nada. Nem sei bem o que era.
Era ilusão. Uma ilusão mimada de um alguém que nunca saiu do seu conforto.
Um desconforto pra mim.
Coloquei fim no pouco que me desconfortava tanto.
Aquele encanto de brilhar o olho quando se vê um rosto já não existe mais. Um rosto. Já não existe mais.
Por hora, não mais.
Por hora, três xícaras de café. Porque gosto assim.

E daqui por diante apenas o que gosto (porque gosto assim: facin, docin, gostozin).

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Das descomplicâncias dos afetos

Acordei com vontade de desatar nós.
Desfazer emaranhados de cacos embaixo do peito.
Acordei com vontade de nos suavizar com um despretensioso "como vai?".

Quanta coisa a gente carrega pesando o caminho, amuando o coração, retumbando em sonhos e se engaiolando em quereres.
Vamos aos fazeres!
Afinal de contas, não deve ser tão difícil dizer oi.

- Oi, eu tô aqui pra dizer que depois desse tempo todo meu coração se aquietou. Sei que alguns quereres... Bem, eu sei que não serão aquietados, mas tá tudo bem, de verdade. Já passou, foi. Aliás, que bom saber que tu vai bem e que entende o meu não dizer mais nada com secume daquele verão passado. Fui seca, fui corte, mas não porque não te queria, pelo contrário. Demorou pra eu parar de aguar por ti... Enfim, tô bem, vim dizer um oi e arrumar esses rastros de bagunça que ficaram por aqui. Ainda quero aquela tarde, pra te devolver aquele livro (que nunca li).

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Uma força dessas que não é de músculos,
não é de fibras,
não tem a ver com carne nenhuma.
Uma força que surge das entranhas, mas vem de muito mais profundo.
Vem do fundo e de antes.
Acho até que tem muito de ancestralidade
nessa força toda.
Quando ouço as histórias delas, quando me reconheço como fruto  que também vai deixar sementes, quando percebo que não é parecendo grandiosa que essa força se torna assim... imensa, gigante... Esse senso do coletivo mulher.
Mulher meio bruxa, meio loba, meio cientista, meio poeta.
Meio inteira, mesmo cheia de rachaduras centenárias.
Historicamente tratadas como metades, meios, menores e o que mais for nesse caminho.
"Torna-se mulher", disseram. Ela disse.
Disseram tantas coisas, não é mesmo?!
E eu ouvi. Ainda ouço tudo.
Contudo, aprendo cada vez mais a sentir. Dia após dia.
Sentindo os dias e o que vem com eles.
E isso,
meu bem,
é o que é essa força.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

No fim das contas todas o que eu contabilizo se volta para o eu, para o meu próprio bem-estar e bem-viver.
No fim de tudo o que importa é eu ser feliz e estar de bem comigo mesma e com minhas tomadas de direção. De bem com as escolhas que eu faço ou deixo de fazer.
Tem a ver contigo também, é claro que sim, é de nós que eu gosto e não do ser/estar só.
O que eu gosto é de ser/estar nós. Eu gosto de nós.
Emaranhados de braços, abraços, cheiros, aconchegos, cafunés e recordes de horas deitados na cama e todo esse mar de afeto que é onde eu flutuo.
Mas pra ser nós tem que ser eu antes de tudo, antes dos emaranhados todos.
Ser eu pra poder ser nós.
É difícil, eu quero ser o fácil e o levo, mas é difícil e pesado ao mesmo tempo.
Saber ponderar, saber ceder sem deixar de ser. Saber ser firme sem ser dura.
Toda uma malemolência, todo um rebole-bole, tudo isso pra poder ser eu e ser nós e estar feliz e ser feliz e ficar de bem com tudo isso como tudo isso é.
Eu queria o fácil, mas meu mundo de alice está caindo por terra e percebendo que nada é fácil ou sem um tanto de esforço... Mas tem coisas que valem os acordos e tantas horas de conversas pra chegar em algum lugar.
Lugar esse nosso, que apesar de não sabermos onde estamos indo, sempre acabamos num abraço bom.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

E se ao invés de querer sugar a alma daqueles que não são nós
E se todo o olhar, qualquer olhar, tivesse um pouco mais de carinho
E se o umbigo não fosse o que mais importa
E se o afeto conseguisse realmente afetar - Afetar aqueles todos, sabe

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Agosto

Agosto chegou.
E já logo de cara, no primeiro dia, veio você.
Saí de casa, com aquela vontade de ficar, com aquele receio de que meus cacos podiam sacolejar a qualquer instante. (Essa mania de levar a nossa bagagem em toda e qualquer estrada...)

Mas daí foi você que chegou com gosto, em agosto.
Seu sorriso, sua boca, sua voz, suas mãos...
Daí foi você.
Daí foi dia depois de dia e noite depois de noite.

Veio você.

Que acalanta meu coração.
Me afaga inteira.
Me sinto boba de tão feliz nesse emaranhado gostoso que é o teu abraço.
Me sinto num dia bom de verão. Me sinto leve. Me sinto vento.

(A felicidade é como o vento, ela passa pela gente e  a gente só pode é sentir)

Agosto chegou e me trouxe você: o verão inteiro nos teus braços abertos pra me fazer feliz.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Julho, faz verão e é inverno.

No exato momento em que meus olhos se encontraram com seus olhos castanhos claros pela primeira vez com calma, à mesa daquele café, no fim de tarde de uma quinta-feira qualquer, eu percebi que me apaixonei.

Aquela visão me encantou.

Aqueles olhos lindos, olhos que pertencem ao homem sentado a minha frente, e que me encaram por três segundos.
Segundos que meu coração fez questão de dilatar.
E que minha cabeça repete várias vezes ao longo do dia desde então.

Esses segundos, essa imagem linda que foi teus olhos me olhando, estão se transformando em dias inteiros.
Não me venhas com indiferença, pois sou mulher de afetos.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Escrever:
Jogar pra fora de si o que há dentro.
Ou da mesma maneira interiorizar o que vem de fora.
Transformar em palavras o que é fluído e/ou esquizofrênico em pensamentos.
Sentir com o verbo. Pensar com os substantivos.

Escrever é estar em si e fora de si ao mesmo tempo. É ter sido e estar sendo.
É o banho de sal grosso que a cabeça pede e o coração dá. Ou vice-versa.

Escrevi. Escreverei. E assim voltei prum ponto que sempre está aqui: minha ilha, meu mar, minha água-viva.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Por entre as frestas da veneziana vejo o dia clarear nos seus tons de azul.
Acordei cedo hoje.
Faço um cafuné no gato, aquele mais choroso por carinho, e volto pra cama.
O azul do dia clareia lento.
Clareia e eu acordo e não durmo mais.
Entre todas as contas dos bancos e seus numerais, entre todas as dívidas a serem pagas, entre a ida à secretaria do instituto da universidade, entre a vontade de passar na loja de bodypiercing e fazer mais um furo no corpo, entre a necessidade de fazer feira, entre a organização dos gastos do próximo mês, entre a poetisa que eu descobri na semana passada olhando vídeos no Youtube eu lembro de você.
Tu tens estado presente entre tudo.
Por entre mim. Tu tens estado presentificando-se, até quando eu menos imagino.

A imagem que a poetisa criou no meu imaginário se encaixa muito bem com umas das minhas possíveis conclusões para o amor: é como o elemento mercúrio na Terra, que quando cai ao chão se esparrama.
Esparrama, esparrama, esparrama...

Nunca viu isso acontecer quando um termômetro, daqueles mais antigos, cai e se quebra? Então vem, me dá tua mão, vou te mostrar como é mercúrio se esparramando na Terra.